Sobre

Sobre a União Brasileira de Escritores – UBE/GOIAS

Para se compreender a criação da Associação Brasileira de Escritores (ABDE) em Goiás, todavia, é necessário vislumbrar o processo de formação de entidades culturais brasileiras no período. Houve uma intensa movimentação das forças político-sociais no cenário internacional e no país
durante as décadas de 1940 e 1950 e a performance da associação de escritores foi, ao mesmo tempo, um reflexo e um meio de expressão e resistência ao panorama social e político que emoldurou o cenário. Vivia-se o período dos nacionalismos europeus, o fm da Segunda Guerra Mundial, o acirramento dos blocos político-partidários de esquerda e direita e o recrudescimento da censura político-cultural estimulada pela Era Vargas no Brasil.
Os escritores, legítimos representantes da intelectualidade brasileira, reagiram, foram influenciados por teorias e práticas políticas e, com a clara ideia de resistir às pressões ao seu ofício, associaram-se. As origens estiveram relacionadas a Sérgio Milliet, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, intelectuais que fundaram a Sociedade Brasileira de Escritores em maio de
1942, no Rio de Janeiro3. A seção de São Paulo foi requerida por Sérgio  Milliet, sob o nome de ABDE (Associação Brasileira de Escritores) – seção de São Paulo em novembro de 1942.

Outro acontecimento importante criou solo fértil para a criação da ABDE em Goiás: I Congresso Brasileiro de Escritores. Realizado em São Paulo, em janeiro de 1945, deste evento participaram aqueles que seriam os fundadores da entidade: Bernardo Élis, Cristiano Cordeiro e João Accioly.
É o próprio Bernardo Élis quem destaca a importância do evento para a fundação da ABDE: “a atual UBE, foi fundada em 14 de abril de 1945, com o nome de Associação Brasileira de Escritores – seção de Goiás. Passou a chamar-se UBE – União Brasileira dos Escritores de Goiás – a partir de 15 de agosto de 1962(…). Antes da fundação houve em São Paulo – janeiro de 1945 – o I Congresso Brasileiro de Escritores, convocado pela ABDE paulista, a que compareci com Cristiano Cordeiro e João Accioly, integrando a representação de Goiás”.6 A ABDE, entretanto, que nasceu como uma associação de classe preocupada com questões específcas referentes ao métier do escritor, como os direitos autorais, acaba por frmar-se como entidade propulsora da cultura e da luta pelos ideais democráticos O I Congresso Brasileiro de Escritores parece ter sido, de fato, um marco para afrmar a vocação nacional da UBE, até então, ABDE, congregando intelectuais de vários Estados que intencionavam discutir os rumos da produção cultural e os limites da ditadura no Brasil. Ao reunir mais de quinhentos participantes que discutiam diversos aspectos da política e da cultura no país, as vozes intelectuais acabaram por contribuir para fortalecer a pressão de diversos setores sobre o Governo Vargas, que, por uma série de fatores, terminou o seu primeiro mandato em outubro de 1945.7 Cristiano Cordeiro, o fundador do Partido Comunista do Brasil em 1922. Cristiano Cordeiro estava em Goiás, deportado de Pernambuco por causa de sua militância política. Mesmo sem
forte formação teórica, Cristiano Cordeiro era um idealista, considerado por Leandro Konder como um “santo do comunismo”.15 De fato, na Revista do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro, dedicada a Cristiano Cordeiro, foi publicada a entrevista concedida ao jornalista Ricardo Noblat, em 1979. Nela Cristiano Cordeiro assim define a utopia comunista e cristã pela qual dedicou sua vida e trabalho:

Entretanto, sua participação nas origens da ABDE, foi mais simbólica do que efetiva. Embora conste nos registros da entidade como primeiro presidente, Cristiano Cordeiro nunca exerceu o cargo de maneira concreta. Ao relatar, em suas memórias, sob quais circunstâncias aportou em Goiás em 1940 para retornar ao Recife oito anos depois, não há nenhuma referência à entidade em que figura como primeiro presidente:

Bernardo Élis confirma essa posição: “Cordeiro nunca esteve na presidência da entidade, pois desde o Congresso de São Paulo retornou para o Rio de Janeiro, reassumindo cargo de que tinha sido afastado pela ditadura getulista na qualidade de fundador do Partido Comunista Brasileiro. Desde o início, pois, a presidência da antiga ABDE e hoje UBE esteve ocupada por mim, onde me mantive de 1945 a 47, depois entre 47 e 49 e novamente de 1959 e 61”.

A Bolsa Hugo de Carvalho Ramos, foi criada pelo decreto municipal n. 475, de março de 1943 e regulamentada pelo decreto nº 599, de 30 de abril do mesmo ano. Em 1945, pelo decreto-lei nº 522 de 8 de outubro, passou a ser supervisionada pela Associação Brasileira de Escritores – Secção de Goiás (ABDE), que nesse ano se fundou em Goiânia. Apesar de seu funcionamento mais ou menos burocrático, a Bolsa Hugo de Carvalho Ramos é a única entidade cultural que
prestou e vem prestando efetiva contribuição às nossas letras.25
De fato, logo que foi fundada, a ABDE assumiu, como já foi mencionado, a responsabilidade pelo julgamento e premiação da Bolsa Hugo de Carvalho Ramos. Na Ata da sessão de 01/09/194526, em reunião realizada na SGPA, há a nomeação da Comissão Julgadora da publicação da Bolsa Hugo de Carvalho Ramos, a partir daí de responsabilidade da ABDE. A Comissão foi constituída por Domingos Félix de Sousa, Maria Paula Godoy e Oscar Sabino Júnior. Além do parecer sobre a obra em
geral, os integrantes da comissão comprometiam-se com a correção da obra, caso indicado 27.
Os documentos encontrados na sede da UBE atual, demonstram o envolvimento dos representantes da ABDE, em 1946, com a Bolsa Hugo de Carvalho Ramos, comprovando ser, esta, a atividade mais importante da entidade no período.

Sob a responsabilidade do novo presidente da ABDE, José Bernardo Félix de Souza, foi, então, realizada a I Semana da Arte em Goiás (1956). Segundo Gilberto Mendonça Teles, a Semana foi pensada pelo Prof. José Bernardo Félix de Souza para motivar o ambiente literário. Para este seminário, foram convidados livreiros e alguns escritores paulistas como Domingos Carvalho da Silva, Mário Donato, Antônio Rangel Bandeira e Homero Silveira.

O presidente também assinala o maior desafo dos escritores goianos: encontrar meios de publicação e distribuição de suas obras.
No relatório que José Bernardo Félix de Sousa faz para a nova diretoria da vida da instituição entre os anos de 1956 e 1957, há referências à I Semana da Arte e à subvenção anual concedida pelo Estado à ABDE, para custeio e manutenção da entidade.

No início do mês de maio de 1959 o presidente, Oscar Sabino Júnior, convocou Assembleia Geral para eleger nova diretoria e os demais grupos da entidade. O grupo eleito foi, novamente, liderado por Bernardo Élis, que, a partir de 14/05/1959, iniciava sua segunda gestão na ABDE. Criou-se, também, neste ano, departamentos e comissões para auxiliar na administração das atividades em que a ABDE estava diretamente envolvida.
Surgiram, então, por meio da Resolução n°1 de 14 de junho de 1959, os departamentos de Bolsas e Publicações, Departamento de Colaboração Literária, Departamento Cultural, Departamento de Relações Sociais, Departamento de Finanças e as Comissões Especiais. Nelas, já se antevia a preocupação do presidente, em adequar a ABDE às transformações ocorridas no seio das agremiações literárias de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Na  gestão do escritor Gilberto Mendonça Teles em 1962, que a ABDE foi transformada em UBE – seção Goiás. Durante o tempo em que Gilberto Mendonça Teles esteve à frente da ABDE, dois acontecimentos foram dignos de registro: o recebimento da sala 409, adquirida na gestão de Oscar Sabino Júnior, além da adequação do Estatuto da ABDE às congêneres nacionais, o que a fez transformar-se em UBE-GO, em 1962. Pela situação em que recebeu a entidade, além dos desafos conjunturais todos, a presidência de Gilberto Mendonça Teles pode ser considerada heroica. A entidade resistiu às pressões todas e enfrentou a questão fnanceira, que já era visível no período. O ano de 1962 foi um ano importante para a entidade. O presidente Gilberto Mendonça Teles procurou reestruturar administrativamente a associação, bem como equilibrar as contas fnanceiras. Em termos de apoio literário, registrou-se a publicação do Jornal Letras de Goiás, jornal da própria entidade que funcionou em duas edições, bem como da contribuição em um suplemento literário do Jornal O Popular. Todavia, as maiores realizações deste ano, talvez tenham sido a regularização e posse da sede própria da entidade na sala 409, do Edifício Vila Boa, além da transformação da ABDE-Seção de Goiás em UBE-GO. Em novembro de 1962, já se pode ver o primeiro documento com o timbre da União Brasileira de Escritores – UBE-GO, com o endereço no Edifício Vila Boa, sala 409, e com a subscrição entre parêntesis “antiga ABDE”.

José Décio Filho consta como presidente da entidade por pouco mais de um ano. Período em que parece não ter estado integralmente na entidade, já que os documentos apresentam a ação cotidiana da vice-presidente, Regina Lacerda, algumas vezes apontada como presidente em exercício.
Seu afastamento pode ser justifcado  por questões de saúde.

(EM ATUALIZAÇÃO)